Você já entrou num consultório ortopédico com aquela dor chata no calcanhar ou um incômodo persistente no tornozelo e sentiu que o médico “não fez nada” porque só pediu um raio-X ou, pior, só te examinou e passou fisioterapia? Existe um mito moderno de que a ressonância magnética (RM) é a verdade absoluta da medicina. O paciente sente que, se não entrar naquele tubo, o diagnóstico é apenas um palpite. Mas, na prática clínica de quem lida com pés e tornozelos há anos, a história é bem diferente. Vou te contar um caso que atendi na semana passada. Um corredor amador chegou convencido de que tinha uma ruptura grave no tendão de Aquiles porque a dor era intensa. Ele já queria a ressonância para “confirmar a cirurgia”.
Ao examiná-lo, percebi que o problema era puramente biomecânico: um encurtamento severo da cadeia posterior combinado com um calçado inadequado para o tipo de pisada dele. Se eu pedisse a ressonância de cara, ela provavelmente mostraria uma “degeneraçãozinha” aqui ou uma “inflamação” ali que todo mundo com mais de 30 anos tem, mas que não era a causa real da dor. Teríamos tratado a imagem, não o paciente. A ressonância magnética é sensível demais. Isso parece bom, mas é uma faca de dois gumes. Ela enxerga tudo, inclusive o que não dói. Se pegarmos 100 pessoas na rua, sem dor nenhuma nos pés, e fizermos uma ressonância em todas, uma porcentagem enorme apresentará neuromas de Morton assintomáticos, pequenos desgastes articulares ou até estiramentos ligamentares antigos.
ortopedista especialista em pé fazer consultas
O perigo de pedir o exame cedo demais é encontrar um “incidentaloma” — algo que aparece no laudo, assusta o paciente, mas não tem relação com a queixa principal. No pé e tornozelo, a biomecânica é rainha. O pé é uma estrutura de 26 ossos que precisa suportar o peso do corpo em movimento. Muitas vezes, o raio-X com carga (com você em pé) é infinitamente mais útil do que uma ressonância deitada. Por quê? Porque precisamos ver como o seu arco se comporta sob pressão, se há um desabamento que caracteriza o pé plano ou se a distribuição de carga está gerando uma sobrecarga nos metatarsos. Na ressonância, você está relaxado, sem gravidade. O diagnóstico de um pé cavo ou de uma instabilidade crônica de tornozelo começa no toque, no teste de gaveta, na observação da marcha.